sábado, 2 de abril de 2011

Adoecidos pelo perfeccionismo

Você consegue administrar seu complexo de andróide?

Vivemos numa época de potencialização de talentos, otimização de resultados, maximização de produtividade e demandas exageradas por inovação e criatividade.  Essa cultura nos pressiona de todos os lados e nos cria uma visão distorcida da vida, das pessoas e do mundo que nos torna completamente neuróticos, incapazes de verdadeiramente viver a vida. Desfrutá-la, então, é uma utopia que passa longe, muito longe.

Cada um de nós recebe, diariamente, tarefas a serem realizadas, o que já nos toma muito tempo, energia, concentração e esforço. Mas há um tipo de gente especialista em assumir, além das suas tarefas cotidianas e profissionais, uma infinidade de outras atividades desnecessárias, que só servem para aumentar sobre si a carga de cobranças e responsabilidades, sequestrando cada  segundo de paz e equilíbrio emocional. Bem, eu já passei desta vida!

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Diálogo ao telefone
(num "pleno janeiro", no Rio de Janeiro)

- Professora, nós gostaríamos de agendar com a senhora uma oportunidade para ser palestrante num encontro acadêmico aqui em Belém, em  nossa faculdade, mas precisa ser no segundo semestre...


- Olha professor eu gostaria muito, mas no segundo semestre estarei envolvida nas cinco faculdades onde trabalho todos os dias da semana durante a noite, e participando de dois processos seletivos para o doutorado em duas universidades federais, pois não sei em qual delas passarei,  sem contar um concurso público para o qual estou estudando bastante, tenho que providenciar um professor substituto para ter condições de viajar para sua cidade ... para quando mesmo seria?

- Meu Deus, professora! Quando é que a senhora vive?
(lamentavelmente baseado em fatos reais)

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Quando não se sobrecarregam com muitas atividades desnecessárias, os adoecidos pelo perfecccionismo injetam uma dose sobre-humana de exigências nas próprias tarefas do dia-a-dia que, para conseguir realizá-las, eles tem que abdicar da humanidade, serem transformados em andróides ou cyborgs: blindados, inatingíveis, invioláveis, impenetráveis, intocáveis e, é claro, solitários. Gente que perde a capacidade de desfrutar a vida só vive sozinha, já reparou?

Lido com essa questão há muito tempo porque desde que me entendo por gente sou perfecionista e sempre impus altos níveis de exigência em tudo que eu faço. Até um dia, uns quinze anos atrás, em que ouvi, do meu analista, a doce reprimenda:

- Lília, ser assim não te torna melhor do que ninguém. 
Você vai acabar se matando. 
Você precisa ler um livro chamado: 
"Todo mundo é incompetente, inclusive você" ... 
(Palavras de Olavo)

Bem, até hoje não li o tal  livro (embora esteja na lista do zilhão de coisas que preciso ler) mas só o título do bendito me ensinou a lição que eu precisava.

Até aquele momento eu não tinha me dado conta que eu fazia as coisas daquele jeito por vários motivos, mas principalmente para receber aprovação das pessoas. No meu complexo de andróide eu chamava aquilo de excelência, mas era incapaz de simplesmente "chutar o balde" e me dar ao direito de parar tudo e tomar uma taça de vinho, assistindo TV, com deliciosos queijinhos ao lado, simplesmente desfrutando o momento. Não conseguia parar tudo, colocar a bike no carro e ir pedalar na Lagoa sem ficar me sentindo culpada pelo tanto de coisa que deixei de fazer.

Vários motivos nos levam a agir desse jeito psicótico e obcecado. Não quero fazer uma análise muito profunda aqui porque vai demorar, hoje é sábado e, embora escrever muitas vezes me relaxe, como agora, dentro de alguns minutos eu vou abrir a garrafa de vinho que ganhei de presente, desempacotar os queijinhos deliciosos que comprei e vou assistir meus filmes, sem dar à ninguém o direito de interferir neste meu momento de puro egoísmo. Mas tenho que me policiar constantemente para não ser seduzida pela adrenalina deste ativismo doentio que me levaria à nocaute e me impediria de ser feliz.

Por isso vou falar rapidamente das minhas observações sobre o complexo de andróide do ser humano do séc. XXI e espero que ajude aos leitores a olharem para a qualidade de vida que estão levando.

Por que as pessoas se tornam adoecidas pelo perfeccionismo?

Falta de Auto-Conhecimento: Parece brincadeira, mas tem muita gente que acha que se conhece, mas não se conhece. São pessoas que possuem impressões totalmente distorcidas sobre elas próprias, não sabem reconhecer onde estão seus limites, seus potenciais e não conseguem discernir entre aquilo que lhes faz bem - e que devem abraçar com calorosa acolhida,  e aquilo que lhes faz mal - que devem rejeitar sem medo de ser feliz. Não sabem filtrar aquilo que se aproxima delas. Ficam danosamente próximas do perigo, quando se dão conta estão num estilo de vida  autofágico,  se consumindo.

A segunda amiga íntima do perfeccionismo doentio é a Falta de Auto-Estima. Essa então é mais sutil do que a falta de auto-conhecimento. Porque admitir que não se conhecem tão bem, algumas pessoas até admitem, mas admitir que tem auto-estima ruim é como assumir uma doença incurável e perniciosa. Ninguém admite que tem uma baixa auto-estima porque isso implicaria em talvez procurar ajuda profissional, aí as pessoas vão ficar "achando que estou maluco"... quanta tolice! A falta de auto-estima faz a gente se encher de atividades para agradar as pessoas e dificilmente fazer algo para agradar a si próprio. É uma praga, uma corrosão da alma que vai comendo, comendo, comendo, até que te oxida completamente.

Falta de Humildade - Muita gente que tem baixa auto-estima projeta suas reações em atitudes opostas, a psicologia explica isso muito bem. Elas se tornam prepotentes, auto-suficientes e possuidoras de uma arrogância que as torna incapazes de aceitar a ajuda de uma pessoa mais simples que não consegue fazer um trabalho" tão bom quanto o dela". Sabe aquele tipo de líder que está o tempo inteiro reclamando da qualidade do trabalho de alguém de sua equipe porque nunca está suficientemente bom? Ao invés de orientar o liderado a conseguir encontrar por si mesmo o caminho de excelência naquela atividade ele arranca o trabalho da mão da pessoa e "retoca", alterando tudo que o liderando  fez. Conhece alguém assim? É dele que estamos falando. Esse é o cara!

- Lília, está na hora de você perceber que as pessoas não tem obrigação de ser "tão maravilhosas" quanto você!
(Palavras de Olavo)

Falta de humildade nos leva a não reconhecermos os nossos limites. Nos faz  incorporar uma auto-suficiência que só vai nos levar para o buraco do fracasso nos relacionamentos. Falta de reconhecimento de limites é arrogância, pura presunção. Um líder que não sabe se relacionar, dispensa maiores comentários.

Em Good to Great Jim Collins reporta que empresas com alta performance - que ele classificou como "empresas feitas para vencer" - apresentaram curiosa semelhança nos seus melhores líderes:
1) Apresentavam elevados níveis de determinação
2) Eram humildes
Ele se refere a estes líderes como pessoas "aparentemente comuns, quietamente produzindo resultados extrordinários". Rick Boxx completa a ideia dizendo: "os líderes que a equipe de Collins estudou compreenderam os perigos de serem apanhados na armadilha da presunção".
Para ler o artigo completo clique aqui

Por fim, vou compartilhar aqui um texto espirituoso que recebi por e-mail dias atrás. O texto não é novo mas o conteúdo é sempre atual, e por incrível que pareça,  eu não o conhecia.

Tenha uma ótima semana porque agora eu vou abrir aquela garrafa de vinho!

DOZE CONSELHOS PARA TER UM INFARTO FELIZ
Dr. Ernersto Artur - Médico Cardiologista

1) Cuide do seu trabalho antes de tudo. As necessidades pessoais e familiares são secundárias.

2) Trabalhe aos sábados o dia inteiro e, se puder, também aos domingos.

3) Se não puder permanecer no escritório à noite, leve trabalho para casa e trabalhe até tarde.

4) Ao invés de dizer não, diga sempre sim a tudo que lhe solicitarem.

5) Procure fazer parte de todas as comissões, comitês, diretorias, conselhos e aceite todos os convites para conferências, seminários, encontros, reuniões, simpósios e etc.

6) Não se dê ao luxo de um café da manhã ou uma refeição tranquila. Pelo contrário, não perca tempo e aproveite o horário das refeições para fechar negócios ou fazer reuniões importantes.

7) Não perca tempo fazendo ginástica, nadando, pescando, jogando bola ou tênis, afinal, tempo é dinheiro.

8) Nunca tire férias. Você não precisa disso. Lembre-se que você é de ferro.

9) Centralize todo o trabalho em você, controle e examine tudo para ver se nada está errado. Delegar é pura bobagem: é tudo com você mesmo.

10) Se sentir que está perdendo o ritmo, o fôlego e pintar aquela dor de estômago, tome logo estimulantes energéticos e anti-ácidos. Eles vão te deixar tinindo.

11) Se tiver dificuldades em dormir,não perca tempo: tome calmantes e sedativos de todos os  tipos. Agem rápido e são baratos.

12) e por último, o mais importante: não se permita ter momentos de oração, meditação, audição de uma boa música e reflexão sobre sua vida. Isso é para crédulos e tolos sensíveis.

Repita para si:
Eu não perco tempo com bobagens.
Duvido que, seguindo à risca os conselhos acima, você não terá um belo infarto. 

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